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A irmandade de fãs da Taylor Swift: entendendo o sucesso da cantora, The Eras Tour e “Girlhood” como um estado de espírito

Se você vive em sociedade no ano de 2024 e tem contato com alguma mídia social, rádio ou TV, você provavelmente já ouviu falar da cantora Taylor Swift. Seja por suas músicas, seu comportamento como celebridade ou até pela manchete com a morte de uma garota em seu show no Brasil em Novembro do ano passado, você pode ter se questionado: Como essa mulher é tão famosa? Por que ela tem tantos fãs? Esse é o tema deste post.

Primeiramente: quem é Taylor Swift e como ela conseguiu sucesso?

Taylor Alison Swift é o nome completo do que pode se apontar como o mais recente fenômeno pop ocidental. A cantora, compositora, (não tão boa) atriz e diretora nasceu em 13 de dezembro de 1989, numa cidadezinha no estado americano da Pensilvânia e era uma criança determinada. Com 11 anos, já escrevia suas primeiras músicas e aos 14, convenceu sua família a se mudar para Nashville, Tennessee, capital da música country americana, com o objetivo de se tornar cantora e foi distribuindo CDs, indo em rádios, cantando em cafés, que conseguiu alcançar seu sonho de um contrato com uma gravadora.

Dado importante: Isso aconteceu em 2006.

Taylor Swift construiu sua carreira de uma maneira natural, seu primeiro álbum não vendeu muito, mas ela já tinha um plano e sabia como conquistar seu público: com honestidade no que escrevia e com humildade em como se portava, Taylor sempre foi ela mesma, sem papas na língua para escrever os ressentimentos com seus ex-namorados e até mesmo pra escrever como se sentia frágil, deslocada e sem saber se iria encontrar seu lugar no mundo, sentimentos que qualquer pessoa garota de qualquer idade se identifica mas que naquela época não era cantado por nenhuma voz feminina no cenário musical em que ela se encontrava.

Foi com essa imagem de garota simples, sincera, vivendo suas decepções amorosas que Taylor Swift conquistou seus fãs, ela nunca foi ofertada como uma pop star fabricada, pelo contrário, na grande parte de sua carreira, a imagem de Taylor foi tratada como uma menina acessível, seja convidando pessoas da platéia para as “T Partys” (festas nos bastidores) no final de seus shows, realizando um Meet & Greet (espécie de encontro atendendo os fãs) por 13 horas seguidas ou selecionando Swifties (nome dado aos seus fãs) na internet para irem em sua própria casa ouvir seu próximo disco inédito enquanto assa cookies para eles… Quem poderia resistir a doçura da garota emotiva e que dança engraçado e que pode se tornar sua melhor amiga?

Um guia através das Eras

Desde o seu primeiro disco em 2006, até as vésperas do lançamento de seu décimo primeiro álbum que sairá no dia 19 de abril, Taylor manteve a mesma imagem de grande amiga, uma pessoa acessível, mas a artista se reinventou diversas vezes, tanto em apresentar diferentes traços da sua personalidade quanto em sua sonoridade em cada projeto, suas composições podem ser divertidas e brincalhonas, o que ela mesma categoriza como composições de “caneta gel com glitter” (músicas como Karma, ME!, Hey Stephen) ou também sérias, com letras poéticas e temas dramáticos (tolerate it, State Of Grace, Soon You’ll Get Better).

Taylor’s Version

É importante mencionar que um fator que contribuiu para que Taylor Swift se tornasse a artista tão reconhecida que é hoje em 2024, foi que ela enfrentou publicamente uma batalha sobre possuir a arte que produz. Em 2019, Swift anunciou que seus masters (as gravações originais de suas músicas e os direitos de reprodução sobre elas) teriam sido vendidos para terceiros, sendo parte de um grupo pequeno de artistas da história que sofreram com essa perda e decidiram expor como a indústria fonográfica pode explorar seus clientes. Como uma alternativa, Taylor anunciou que iria regravar seus discos, incluindo faixas bônus e conteúdos nunca vistos antes, o que fez com que as novas gerações conhecessem seus trabalhos mais antigos, como o álbum Fearless lançado em 2008 e relançado em 2021 com o nome de Fearless (Taylor’s Version).

O auge de Taylor Swift e a The Eras Tour

Quando Taylor Swift transicionou para a música pop na Era 1989, pode-se dizer que foi o momento em que ela assumiu a verdadeira posição de um ícone global, Shake It Off foi um fenômeno e o álbum cheio de hits que mostrou quem ela era para o mundo, saindo da bolha estadunidense em que o country a segurava. Na época, Taylor ganhou o Grammy de álbum do ano e foi considerada um dos grandes nomes da cultura pop, mas acredito que somente entre 2020-2022, depois de ter entrado no gênero alternativo/folk e voltado novamente para o pop, que ela se estabeleceu como A Artista Taylor Swift para o público geral.

É díficil estabelecer o exato momento em que Taylor Swift foi totalmente tomada pelo gosto popular, já que num período de 2 anos pós-pandemia a cantora lançou 5 álbuns (3 originais e duas regravações) mas o fato é que a musicista nunca foi tão escutada, comentada e popularizada.

A popularidade de Taylor só cresce, seja por suas músicas agradarem sonoramente, seja pela persona que ela construiu com os fãs, seja pelos conceitos musicais e metáforas que conquistaram novos fãs, o fato é que com o lançamento de tantas músicas, a artista teve uma ideia que contribuiu ainda mais para estabelecer esse momento como seu auge: fazer um show que não apenas englobasse as músicas de seu último álbum (Midnights), mas que incluisse também os discos “pandêmicos”, que não tiveram suas próprias turnês, criando a turnê mais lucrativa da história, a The Eras Tour.

Entrando nas Eras: A cultura pré-show

Taylor Swift levou o que vou chamar de “cultura pré-show” a outro nível. Se aproveitando de um fenômeno já observado na cultura pop ocidental e extremamente recorrente em eventos como a Comic-Con, a equipe de Taylor incentivou os fãs se fantasiarem de suas Eras favoritas; não estou dizendo que isso nunca aconteceu antes afinal, com certeza milhares de fãs ao redor do mundo se fantasiam para ir a um show de seu artista favorito, mas os fãs de Taylor Swift colocaram todo o corpo, a alma, dinheiro e mão de obra nessa caracterização.

Alguns fãs decidem ir de Taylor na Era Fearless, outros se vestem como a Taylor na Speak Now World Tour, fazem trabalhos manuais com detalhes riquíssimos e de grande investimento para copiar como ela se vestiu no clipe de Look What You Made Me Do, mas para além do glitter e da costura, das botas de cowboy e dos penteados, os fãs levaram um trecho de uma das músicas do último álbum a sério demais:

“So make the friendship braceletsTake the moment and taste itYou’ve got no reason to be afraid”

(Então faça as pulseiras de amizades, aproveite o momento e prove, não há razão para ter medo) 

You’re On Your Own, Kid – Taylor Swift

A cultura de pulseiras de amizade se tornou um evento próprio. Documentado em redes como o Twitter (X), TikTok, Instagram, milhares de garotas publicam como fazer essas pulseiras, ideias do que escrever nas pulseiras, quantidades surpreendentes de lojas de miçangas ficando sem estoque, pessoas gastando centenas dólares e reais, levando 100, 200 pulseiras para trocar com desconhecidos, tudo por conta de uma frase.

“Girlhood” e experiência do show.

Quando falamos sobre mulheres e cultura pop, é necessário compreender que nem tudo é flores. Taylor Swift surgiu na indústria como uma adolescente nos anos 2000 e foi uma das afetadas pela misoginia da época, tanto utilizando dessa mentalidade para usar rivalidade feminina em suas músicas como também sendo alvo do machismo da indústria. Em resumo, ser fã de Taylor Swift em 2010 era completamente diferente de ser fã de Taylor Swift hoje. Enquanto em 2010, os sentimentos de Swift eram tratados como música “de menininha” sobre ex-namorados e a cultura pop incentivava meninas a competirem e serem diferentes das demais, saindo dos clichês femininos e tendo gostos para além de suas idades somente para competir pela atenção masculina, em 2023 a situação se altera por completo. 

Depois de muitos anos, a experiência de ser mulher passa a ter os olhos e ouvidos de Hollywood, com conceitos como o feminismo e o “girl power” sendo de fácil acesso das massas com a globalização, a ideia de ser mulher, de ser autêntica, de viver problemas que toda garota vivencia passa a ser algo… legal, positivo, algo a ser celebrado. O “movimento” girlhood usa de símbolos da juventude feminina como uma forma de recusar as expectativas de entrar em termos com o ideal de como uma mulher adulta vista pelos olhos masculinos deveria ser; é o movimento de mulheres que sentem que foram privadas de agirem como garotas por um longo tempo. É nesse contexto em que se orgulha falar de sentimentos românticos, maquiagem, glitter, roupas, pulseiras da amizade e toda a ideia de “feminilidade fútil” que Taylor Swift e seu show se tornam um lugar seguro e livre para mulheres (e gays!) cantarem suas dores, mas também suas alegrias, abraçando os lados divertidos e constrangedores pulando e gritando. Ser fã de Taylor Swift em 2023 é celebrar ser uma garota, sentir demais, se apaixonar, enfrentar preconceitos e entender que outras mulheres não são suas inimigas em potencial.

Se cria então uma irmandade Swiftie, de mulheres brancas e negras (contrariando uma tendência de segregar música “de branco” e música “de preto” que anda repercutindo nas redes sociais), pardas, amarelas, ricas, pobres, de diversas nacionalidades, de todas as idades que se unem pela música de Taylor e isso é refletido numa experiência única no show. Garotas se maquiando e maquiando as outras, desenhando “13” na mão umas das outras (o número da sorte de Swift), distribuindo água e comida na fila, cantando juntas, trocando centenas de pulseiras da amizade… 

Talvez daqui há 10 anos não seja mais legal ser um Swiftie como é agora, talvez esses vínculos criados somente pela música não se bastem para os próximos álbuns, mas nesse momento são esses elementos que configuram o grande fenômeno cultural que é Taylor Swift e a importância do que ela proporciona aos seus fãs.



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